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domingo, 30 de dezembro de 2012

une seconde, une nouvelle page


Era apenas mais dia do ano. Era o último dia. Trinta e um de dezembro. O mundo não acabou como muitos pensaram. A vida não acabou, estava apenas começando. E o amor estava ali, pronto para reinar. E reinou.

O ano não havia sido como planejado. Muitas tristezas, muitos passos errados. Caminhos foram traçados, escolhas foram feitas e muita coisa mudou. Mas o amor estava ali o tempo todo. Um sorriso e tudo estava bem. Um sorriso e o ano valeu à pena.

Seus sonhos não foram concretizados, e se mostravam longe de se concretizar. O mundo estava ao seu redor e, no entanto, não pode aproveitar tudo o que desejou. Viajou. Curtiu. Riu e se divertiu.

Caiu. E se reergueu.

Amigos estavam ali a seu lado, mas sempre há um jeito de estragar tudo. O poeta estava certo, amizade se conquista. Demora-se um tempão para que isso aconteça. Segredos sendo confidenciados. Risos secretos. Abraços cúmplices. E em um instante tudo pode mudar. Uma palavra. Um olhar. Um momento apenas, e tudo pode mudar.

Muita coisa mudou, mas aquele era o último dia do ano. Tudo poderia começar a partir dali. Tudo começaria a partir daquele instante onde o ciclo se acaba. Tudo começaria a partir daquele segundo que dividia tudo. Tudo começaria ali, naquele momento. Não como em um mundo novo. Apenas mais uma página em branco, dentro do livro da vida.

Pensou e refletiu sobre tudo o que havia acontecido. Muita coisa deveria ser esquecida, mas como. Esquecer quando se comete um erro é simples, mas a dor de quem sofre é eterna. A desconfiança. A dúvida. O erro permanece. Mas a mudança pode amenizar. A mudança sincera pode encantar e reforçar os nós.

Muita coisa aconteceu. Muita gente passou. Muitos. Tudo e nada, foi o que aconteceu naquele ano. Tudo e nada, foi o que houve em sua vida. O amor estava ali. A vontade de mudar. Mas o erro também esteve presente.

Passou a última noite daquele ano interminável pensando. Refletiu sobre a vida. Refletiu sobre si. A vida estava ali, pronta para caminhar. As páginas em branco lhes eram entregues a todo momento, num período de vinte e quatro horas. O livro da vida ainda não se fechara. Ainda havia algo a escrever.

Havia muito a escrever.

Junto a tudo o que amava, junto a tudo com o que conviveu, junto ao mundo que criou, sentou-se e pôs-se a escrever. Não leu muito aquele ano, mas o fez mais que antes. Trabalhou em coisas de que gostava. Desenhou. Cantou. Brincou. Viajou. Conheceu o novo. Viveu a arquitetura e a natureza. Viveu e experimentou a natureza. Viveu.

O ano estava acabando. Restavam algumas horas. Dali para frente, muita coisa havia de ser mudada. Mudou. Começou a revolução de que tanto falava. Começou a revolução que estava à sua frente o tempo todo. Ouvira falar sobre o novo, mas só ali efetivamente percebeu.

Não queria continuar com os velhos hábitos. Não continuou. Não queria manter a rotina. Não manteve. Queria amar. Amou. Queria sorrir e viver. Sorriu. Viveu. O ano estava acabando em poucas horas. Mas em poucas horas o ano estaria começando. Um novo volume de sua história. Um segundo. Um ponto final.

A mudança caminhava a passos lentos, mas caminhava. A vida corria, mas sabia que deveria e conseguiria alcança-la. Esqueceu-se dos passos errados, dos caminhos obscuros. Apagou de sua vida todo o mal. Apagou de sua vida o fracasso.

Esteve à beira do fim. Se salvou. Aquele sorriso lhe salvou. O sol do litoral lhe salvou. Conheceu o sucesso. Conheceu o fracasso. As moedas estavam ali. As duas faces lhe encantavam, e colecionava cada momento. Tudo faz parte da história.

Muita coisa mudou, mas nada mudou tanto quanto seu desejo. Nada mudou tanto quanto seu olhar. A vida lhe foi entregue, uma vida nova, uma vida ao amor. Páginas e mais páginas lhe seriam dadas e tudo poderia mudar.

O mundo não acabou. A humanidade sim. Mas o amor estava nascendo em  seu coração. A esperança estava nascendo em seu corpo. A vida estava nascendo no seu mundo.

Pediu perdão. Ajoelhou. Abaixou a cabeça e aceitou seu destino.

O ano estava acabando. Trinta e um de dezembro e tudo estava apenas começando. A madrugada lhe guardava. O amor lhe guardava. As luzes iriam brilhar e, nesse momento, tudo iria mesmo começar.

Mudou. Tudo mudou. E a vida mais uma vez começou.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

fechando as portas

Pintura finalizada. Chão lavado. Nenhum móvel atrapalhando. Luzes funcionando. Água encanada. Portas com óleo em suas dobradiças. Janelas limpas. E agora era oficial, ao fechar a porta daquela casa seria de fato oficial.

Por oito anos aquele foi o mundo de uma família. Tudo girava em torno de risos, choro, muito choro e muita alegria. Eram sua família, pelo menos uma parte dela. Um tio, uma tia e, como gostava de dizer e enfatizar, uma princesa, sua princesa.

Agora caía-lhe a ficha, não estavam mais ali. Foram embora, depois que a van virou a esquina à direita. Nada mais lhes ligava, exceto os traços sanguíneos. A casa já estava alugada. Dentro em breve uma nova família abriria aquelas portas.

Vistoriou tudo uma última vez e decidiu-se por não voltar ali enquanto estivesse vazia. Não desceu de fato. A casa que ficava em seu quintal, agora estava vazia e parecia nova.

Apagou a luz do quarto e fechou sua porta. Passando pela sala, olhou mais uma vez onde antes ela havia rascunhado uma estrela, talvez aos três anos de idade, e que agora a tinta nova apagara. Trancou a porta, fechou a janela e apagou a luz.

Fechou a porta do banheiro e chegou enfim à cozinha. Ali muitos momentos bons foram vividos e agora, ao apagar da luz, ficariam para sempre na memória.

Apagou a luz e saiu.

Trancou a porta por fora. Encostou-se na parede da frente, recém pintada. Olhou em volta, todas as luzes apagadas. O silêncio do vazio reinou naquele instante. Tudo estava escuro. Uma nova história começava ali.

O reinado daquela princesa, por ali, havia terminado. Seu legado, o rascunho da estrela, fora apagado pela tinta nova. Era noite, mas a luz não aparecera. Tirou a chave da fechadura. Segurou por mais alguns momentos a maçaneta de alumínio frio.

Saiu dali em direção à escada, deixando pra trás o quintal vazio e a nova casa. Apagou a última luz que faltava. Não olhou pra trás. Entrou em sua casa, foi para seu quarto. Deitou-se e adormeceu com a imagem de sua princesa em mente.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

le trois


A festa havia acabado. A lua já se preparava para dar espaço ao astro rei. Ainda se ouvia um som aqui ou ali, mas as ruas estavam vazias. Aos poucos foram se despedindo das outras pessoas que lhes acompanhavam. A noite não estava fria. Não estava quente também. O tempo era agradável a qualquer um que por ali quisesse flanar.

Três corpos. Três almas caminhando por entre a selva de pedra. Amor. Tesão. Sexo. Palavras estas que rondavam pelo ar. Seus corpos exalavam sensualidade. Entre olhares e sorrisos, como que por instinto suas bocas se tocaram. Não havia mais ninguém ali. Apenas três jovens com vontade de curtir. Experimentar o novo.

Poderiam entrar em qualquer espaço da avenida, mas decidiram ir a um lugar reservado. Garotos de programa, prostitutas, mendigos, uma cidade suja começara a aparecer. O cheiro de sexo agora estava no ar. Encontraram um motel ou algo parecido em uma das esquinas. Entraram.

A timidez parecia não exercer nenhuma influência no seu desejo. A manhã tardara a clarear, e o ambiente escuro onde entraram lhes soou um tanto acolhedor.

Sentimentos à flor da pele. Toques sensuais. Beijos calorosos. Peça por peça, e a roupa ia se espalhando pelo chão. A intimidade do corpo posta a prova naquele quarto de motel. Na rua, pessoas passavam. A cidade começava a ter vida. E entre quatro paredes, no quarto número 8, desejo, tesão, o novo, sendo experimentados. O sexo sendo descoberto.

Carícias provocantes. O ritmo crescia. O ritmo da cidade acelerava. O sol já começava a aparecer, o cheiro de sexo continuava nas ruas da cidade. Três amantes. Desconhecidos, mas se amavam.

As pernas entrelaçadas, beijos ardentes. Três corpos envoltos em si. Três corpos nus. Livres de dogmas e paradigmas. Envoltos por uma onde de paixão e desejo. Envoltos pelo prazer. Movimentos leves, sensuais. Respiração ofegante, mãos quentes, um toque firme e o ápice do prazer. O doce sabor do prazer. A pele sensível, os olhos cansados, corpos em chamas.

Lá fora o sol brilha. As pessoas correm para chegar aos seus destinos. A vida noturna dorme. Não há cheiro de sexo. O progresso vive. A selva de pedra condena. Os três, juntos. Os corpos, cansados. Os olhos, sonolentos.

A água cai sobre o corpo em um banho morno. As roupas vão se recompondo. Nada mais no chão, nada mais no quarto. Nada mais entre estes três seres. O cheiro do desejo permaneceu ali. A cidade olha, vigia, condena. A saída.

Os olhos se cruzam. Apenas a cumplicidade desconhecida nas ruas da cidade. O quarto 8 vai ficando pra trás. E como num encontro casual, a despedida singela.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

la vie en un instant


Era um dia como outro qualquer. Uma manhã de sol brindou aquela sexta-feira. Fotos foram tiradas. Sorrisos intercalavam-se à seriedade da cidade. Os edifícios estavam lá, as pessoas não. O mundo girava e o tempo passava. Era apenas mais uma sexta-feira.

Naquela manhã acordou bem cedo. Tomou seu banho. Preparou um delicioso copo de chocolate com leite. Comeu um ou dois sanduíches leves. Pegou o que devia pegar e arrumou tudo em sua mochila. Saiu, como sempre, junto ao cansaço e seus pensamentos. Não queria que fosse mais uma sexta-feira qualquer. A rotina lhe vencia todos os dias. Esta era sua hora.

E foi. Esse foi seu dia.

Olhou para o céu. O sol brilhava. Colocou seus óculos escuros e esperou o 103 que levava ao centro. Estava indo em direção à grande metrópole. Entre cinzas e o azul do céu claro, andava com sua pequena câmera na mão. Olhava ao redor e imaginava, e olhava, e pensava. Tudo lhe corria bem. Tudo iria lhe surpreender.

Cores se sobressaíam em meio à selva de pedra. Sorrisos, olhares, conversas e ideias trocadas. Um papo cabeça. Um papo pro ar. Fotos. Imagens. Representações simples do nosso cotidiano. O mundo estava lá, as pessoas não. Os edifícios brilhavam imponentes à luz do sol da manhã. Não conseguia ver as pessoas. Não conseguia ver o humano.

Olhava, admirava. Contemplava o balançar das bandeiras. O passar dos automóveis. O silenciar das pessoas que se faziam obsoletas e ausentes. Contemplou a criatividade na selva de pedra. E viu, um olhar sincero, que lhe despertou. Pessoas surgiram. O mundo girava, as horas passavam, conversas iam e vinham. Pessoas se mostraram.

Caminhou muito, até não poder mais. Seguiu observando toda a magnitude humana. Toda magnitude de sua obra. Grandiosa. Preciosa. Exuberante.

Amigos faziam-lhe companhia. Pessoas se tornaram cada vez mais numerosas. Risadas surgiam aqui e ali. A pressa se fez notar. A vida na palma da mão. Tudo a um segundo, ali. Tudo em um segundo, já.

Aqui e agora eram leis. O mundo girava e a pressa se tornou maior. Carros passavam. Bicicletas buscavam espaço. O ponto de ônibus repleto de pessoas, de olhares, de vida.

Arte. Cultura. Pessoas. Vida. A selva de pedra era habitada. A selva de pedra por instantes, por horas, esteve ali. Estava viva, mas ninguém notou. Um garoto pôs a flor no cabelo da menina. A flor roubada do jardim de um dos edifícios se destacou em meio ao cinza da selva.

Câmeras e mais câmeras. Imagens e mais imagens. Representações do ser. Do ter. Do estar. Representações do humano. Uma volta na cidade. Uma volta na galeria. O sol brilhava alto. Sorria e castigava com seu calor. Observava a tudo e a todos. Reinava.

A fome chegou. Conversas murchas apareciam aqui e ali.  Sorrisos predominavam no ar. A caminhada instintiva. O almoço, duvidoso, mas a companhia mais agradável estava lá.

A presença do beijo. A presença do sorriso. Uma troca de olhares. Uma piscada discreta e tudo se resumiu ao desejo. Um alguém no meio da multidão. Um alguém com sentimentos. Um alguém que lhe desejou.

Sorriram. Não acenaram. Discretamente se despediram. Na fila do restaurante, uma conquista. O flerte. A vida em um instante. Não mais se sentiu triste. Com os óculos pendurados em sua gola. Uns amigos por perto. Alguém que lhe desejou.

Não mais se viram. Ganhou seu dia. Rompeu com a rotina, e a surpreendeu. Rompeu com a tristeza, e lhe disse adeus. Um olhar apenas. Um gesto, um sorriso, e tudo se esgotou. A vida, em um instante, aconteceu.

terça-feira, 3 de julho de 2012

la dame à la robe fleurie

Entrou mais uma vez naquele trem, como era de rotina. Não havia lugar livre. Sentou-se no chão junto a uma das portas. Em sua frente, das janelas e vidraças da porta oposta podia se ver o mundo passar.

Sentada no banco ao lado da porta oposta estava ela. Portava-se com a elegância de uma princesa. Tinha no rosto as marcas da idade, já um tanto avançada. Levava consigo um olhar pesado. Ombros caídos, cansados.

Trocaram um olhar, e por um instante a flor na mão da dama de vestido florido estremeceu. Seu balançar suave exalava a essência da mocidade daquela senhora. Desviou o olhar da mulher. Olhou em volta e pode ver o céu azul e limpo e leve que passava rapidamente pelas vidraças da porta oposta.

Um homem com olhar triste e severo observava. Um outro, falava ao telefone celular com a alegria de um ganhador da loteria. Uma moça em pé lia sua revista e se atualizava sobre sua novela. E num banco qualquer do seu lado esquerdo, duas mulheres colocavam as fofocas em dia.

Aquela era sua rotina. Entrava naquele trem. Sempre no mesmo horário. Flutuava em suas ideias e sonhos, e observava todos à sua volta. Olhava em seus olhos, pensava no que pensavam, pensava sobre o que fariam, para onde iriam.

Anônimos. Estranhos. Pensantes. Olhares que iam e vinham pela cidade. Rotinas cruzadas. A dama do vestido florido exalava isso. Estava só, com a flor em sua mão. Pensava. Em que? Em quem? Não se sabe.

Olhou novamente à sua volta. Estava chegando a seu destino. Pôs-se de pé. Não era a única pessoa naquela posição, mas todos os olhares se voltaram para seus passos, seus atos.

O trem parou em sua estação. A dama de vestido florido lançou-lhe um olhar. Desembarcou pela porta oposta e caminhou em direção às escadas. O trem fechou-se em seu universo de ferro. Partiu. Rotinas seguiram na grande centopeia metálica que serpenteava pela cidade. A vida seguiu.

domingo, 1 de julho de 2012

l'univers secret

Naquele domingo à noite, não conseguia pensar. A pequena artista, de apenas 5 anos lhe revelara o segredo. Tudo o que se passava em sua cabeça estava ali, retratado pelo caos. Um universo misterioso, secreto e escuro.

Tal como num retrato, a ordem e o caos unidos em um único momento. A vida lhe reservava surpresas e o grande momento se aproximava. Tudo ao seu redor era calmo, tudo era paradoxo, tudo era proposital. O nada se fazia presente. Apenas mais um domingo.

O início de uma revolução. O princípio e o fim, juntos, unidos por uma tinta qualquer, ligados por entre objetos e formas e cores. O caos retratado ali. A arte mostrada entre realidades e verdades e mentiras. A pequena menina, uma fala ainda distinta, com tinta, com cores e formas.

Em algum momento se viu diante dela e não desejou estar em nenhum outro lugar. Queria estar lá, a seu lado, poder brincar de cantar, brincar de pintar, brincar de poetizar. Queria criar, criar o caos, desvendar os mistérios do início e tudo que estava preso àquela grande rede. Tudo estava ali, e nada era aquilo.

Tudo e ao mesmo tempo nada. A vida retratada pelo caos. O universo secreto daquela pequena garota, uma vida, o início da vida e tudo o que sabia era aquilo. E tudo o que sabia era nada, e tudo o que sabia era tudo. A vida diante dela, um pincel, brinquedos e diversão. Fantasia.

A pequena garota lhe deu a visão do que era, de quem era, o caos em sua mente, em seu coração, em seu corpo. Acordou em seu eu, acordou em sua essência, mas não se reconhecia como ser. Era caos, era o fim e o início, estava na ordem e na certeza.

Sua verdades jogadas ao chão como papéis velhos a serem queimados. Livros e prateleiras vazias. A visão do caos era tudo o que queria, o que precisava e o que sentia. A vida renascia em si mesma, e tudo ao seu redor passou a ser sentido, ser real.

O retrato do caos, unido pela arte, pelo fantasiar, pelo tudo e pelo nada. O pequeno e singelo sorriso, os olhos brilhantes, um abraço. O expectador passivo, vê e não pode tocar, não pode falar. Apenas um retrato e o caos e a ordem e o início e o fim. Tudo ali, ligado por linhas desconexas e reais. Ligados por redes e fios e tramas que se conectam e constroem e desconstroem o caos. A vida em um retrato sujo e emoldurado, preso a um universo secreto, estranho, caótico.

A vida em sua essência, o mistério.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

l'attendre


Tomou coragem. Encheu o peito de ar, olhou em volta mais uma vez e, enfim, entrou no trem. Observava todos como se fossem juízes e lhe recriminassem por sua covardia. Estava doente, não pensava na gravidade da situação. Faltava-lhe coragem para aceitar. Contava as horas para que toda aquela situação tivesse um fim.

Tinha de fazer aquilo por si só, mas foi necessário que aquele amigo das fotos lhe abrisse os olhos e lhe forçasse a aceitar. Foi um dia estranho aquele. Era sexta, mas a animação havia ido embora já cedo.

O amigo das fotos lhe convencera a ir ao médico. Demorou um pouco a aceitar, mas sabia que alguém ao seu lado seria de extrema importância. Mas era ele, o amigo das fotos. Talvez um estranho. Não sabia ao certo com quem contar. Imaginava o amigo das fotos como um incentivador, um irmão. Não tinha certeza disso, mas sabia que não havia uma relação ali.

Estava no trem ainda, e imaginava o que diria ao médico, ou médica, não sabia ainda quem lhe atenderia. O constrangimento e a vergonha lhe batiam à porta só de pensar em se expor, mas era necessário. O amigo das fotos esperava apenas uma mensagem, e sairia de casa ao seu encontro.

O trem seguia, mas as horas passavam cada vez mais lentamente. O medo lhe consumia. A vergonha parecia apresentar a todos os seus sintomas. De longe, os óculos escuros escondiam a verdade de seu olhar. Mas tinha absoluta certeza de que os estranhos ao redor sabiam bem o que se passava.

O trem chegou a seu terminal, mas ainda devia pegar o metrô que levava ao centro. Desceu e esperou em um dos bancos daquele terminal. Não tinha forças para continuar, mas o amigo das fotos, mais um estranho em quem confiava do que propriamente um amigo, lhe enviou a fatídica mensagem. Estava lhe aguardando.

Olhou em volta e, por alguns instantes, não ligou para a opinião de mais ninguém. Ergueu-se respirou fundo e foi. Decididamente o amigo das fotos lhe dava as forças e a coragem que lhe faltavam para continuar.

Subiu as escadas, entrou no metrô, conferiu se os documentos estavam na carteira e mandou a tal mensagem. O amigo das fotos saiu de casa e foi a seu encontro. Chegou finalmente ao seu destino.

O amigo o esperava próximo a uma das saídas. Seguiram em direção àquele pronto atendimento. Entregou seus documentos à recepção e, só então, a atendente se pronunciou. Não era ali seu atendimento. Passou-lhe o endereço correto. Seguiram em direção ao ponto onde lhe atenderiam.

Entrou no consultório. Era em uma aconchegante casa do século XX. Quem lhe atendeu foi um jovem simpático que, finalmente, fez com que tudo parecesse mais leve. O amigo das fotos tentou lhe acalmar. Tudo ia bem. A coragem voltou. A calmaria reinava. Mas algo ainda fazia seu coração bater mais forte. A espera era assustadora.

A porta de uma sala se abriu. Lá de dentro uma voz feminina chamou por seu nome. Tudo ia bem, mas agora, devia ir. O amigo das fotos esperou que entrasse. Olhou em seus olhos, disse algo que o amigo não conseguiu compreender. Virou-se e entrou. A tortura chegara ao fim. As dores cessariam, e saberia enfim o motivo de tudo aquilo.

O amigo desceu. Acendeu um cigarro ou dois. Aguardava seu retorno. A consulta acabou. A espera acabou.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

la fleur de feu

Num canto qualquer daquela sala havia uma velha cadeira de balanço. Sentou-se e ali permaneceu lendo o mesmo livro de sempre. Não havia terminado ainda. Ajeitou-se da maneira mais confortável possível. Esticou o braço ajeitou a vela por cima da mesa de modo que esta, iluminasse as páginas do livro.

Estava só e a eletricidade da casa havia acabado. O escuro era total, exceto pela chama flutuante da vela que iluminava aquele canto. Parou um certo tempo, observou o balançar da chama que queimava aquele pavio com cheiro gostoso. A chama queimava, e em meio a ela, uma flor surgiu.

Parou um instante e observou apenas a flor de fogo que queimava.

Pensou em tudo o que estava passando. Pensou em se livrar das provas. Não podia deixar que descobrissem a tal doença. Não queria que descobrissem.

Na verdade o isolamento era característica forte de sua personalidade. Não gostava de contar sobre sua vida. Um livro fechado. Um sonho guardado. Pensamentos secretos, que ninguém diria ter.

Voltou à leitura do livro, e o sono não demorou a chegar. Adormeceu ali mesmo, na velha cadeira de balanço. A chama dançava enquanto dormia, e consumia, devorava sem pena a triste cera que permanecia imóvel. O pavio de um barbante especial, exalava um aroma suave. Do lado de fora, a noite caíra.

...

Permaneceu ali por um certo tempo. Mas o telefone tocou. A energia ainda não havia voltado. A vela já havia sido consumida pela metade. Não sabia quanto tempo permanecera ali, vagando em sonhos, mas ficou feliz ao ouvir o toque do telefone.

O toque ecoou pela casa por mais alguns instantes. E por todo o tempo, soou ser a única coisa viva em todo o ambiente. Levantou-se. Atendeu.

Uma voz suave e feminina falou. Não soube o que dizer. Não soube ao certo que ouviu. Apenas agradeceu e se despediu. Desligou. Sentou-se novamente na cadeira de balanço. Havia levado uma coberta que lhe cobriu perfeitamente. Estendera as pernas sobre a cadeira que se encontrava à sua frente.

Olhou mais uma vez a bela chama dançante. Procurou pela flor de fogo, mas como era de se esperar, esta já havia sido consumida pela exímia dançarina. A vela estava amargando suas últimas gotas. A cera derretia melancolicamente. Vagarosamente.

A eletricidade ainda não voltara. Enrolou-se na coberta. Ajeitou-se novamente. A casa ficou em silêncio. O sono chegou. Tentou ainda olhar em volta e ver se a luz chegara. A noite se estendia. A luz da lua lançava uns poucos raios pela janela.

Adormeceu ali mesmo. A dançarina, que consumira a flor de fogo, que consumira a cera sem piedade e que exalava um aroma inebriante permaneceu ali por mais alguns instantes, até que adormeceu também e se apagou.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

une radio, un sorrise

Dormiu com o rádio ligado. Tocava uma dessas canções que falam da saudade. A noite estava fria, mas no quarto improvisado a sensação era outra. Debaixo das cobertas, seu corpo esta aquecido. Sentira-se muito bem naquele dia.

A noite estava agradável, teve um sono profundo. Não percebeu as músicas que tocavam, e nos sonhos, teve a sensação de estar na companhia daquele sorriso novamente. Há tanto tempo não o via. Em sonho, a saudade daquele sorriso se ia embora com o vento. A saudade daquele sorriso não existia, pois em sonho, aquele sorriso nunca partira.

Acordou com uma ótima disposição no dia seguinte. Em cima de sua mesa bagunçada, apenas um canto parecia organizado. Fotos 3x4 dispostas de tal modo, que se vistas de longe pareceriam uma imagem una. Rostos perdidos no tempo e no espaço de uma vida, de uma história.

Levantou-se de sua cama, foi ao banheiro. Lavou o rosto, escovou os dentes. Foi à cozinha e tomou uma xícara de café, acompanhada por um pão com manteiga apenas. Uma fruta acompanhou sua ida até o quarto, mas permanecera ali até a hora do almoço.

Não faria nada aquele dia. Não havia nada a fazer. Todos naquela casa dormiam ainda. Mas já estava na hora de acordar. O rádio permanecera ligado o tempo todo, e em sua programação tocava as mais variadas músicas de sempre. Sempre a mesmice de amor, saudade e solidão.

Lembrou-se de algo que ouvira na noite anterior. Lembrou-se da música. Do sorriso. Ah, aquele sorriso. Lembrou-se do dia em que o vira, ou que o notara, pela primeira vez. Sempre esteve ao seu lado, mas somente naquele dia pode ver quão belo era.

Seu coração bateu mais forte ao vê-lo. Estava com a mente viajando por entre linhas e cores. Fantasiava lembrando das fotografias 3x4 que sempre colecionou. Mas aquele sorriso, aqueles olhos, não faziam parte da coleção. Não queria que fizessem. Tudo acontecera numa fração de segundos. Um olhar. Um sorriso. Um cumprimento singelo. Um adeus.

Em sua mesa, as fotos 3x4 entregavam olhares desconhecidos. Pensamentos lhe vinham à mente. Não seus pensamentos. Pensamentos aleatórios, que brotavam de expressões e rostos daquelas fotografias.

O rádio tocou sua canção favorita. E o sorriso lhe veio novamente à tona. Pensou em tudo o que havia acontecido, em como deixou-lhe escapar tal oportunidade. Pensou nas fotos em cima de sua mesa. Buscou algo para fazer naquele dia. Pensou em tudo o que poderia fazer. Nada lhe veio à mente.

Pegou um livro qualquer em seu armário, tentou ler, sem sucesso. Ligou o computador. Navegou um pouco pela internet. Olhou algumas fotos de momentos agradáveis. Tentou jogar algo que não lhe deteve por muito tempo. As fotografias continuavam ali, mas agora sugeriam algo.

Olhou em volta, todos ainda dormiam. Pegou um caderno e pôs-se a escrever algo. Pesquisou um pouco em alguns websites, algo sobre fotografia, sobre filosofia, e mesmo algo sobre sociologia. Tudo estava decidido, um tratado deveria ser escrito.

Mas algo o desanimou em seguida. Revirava alguns papéis, quando se deparou com aquele mesmo sorriso. Tentou não olhar para aquela foto. Desviou o olhar, revirou mais alguns papéis, mas a curiosidade foi mais forte. Mexeu na ferida que tanto lhe doía.

Aquele sorriso lhe apareceu novamente, e agora, mais nítido que no sonho. O olhar era o mesmo daquele dia. E a foto parecia tão real. Parou tudo o que estava prestes a começar. Pensou um pouco e logo mais, não sabia para que toda aquela preparação.

Amontoou tudo novamente. Teve o cuidado de guardar todas as fotografias em uma pequena caixinha de madeira. Menos a do sorriso. Esta fez questão de manter onde seus olhos poderiam enxergar.

Guardou tudo o que havia pego. Foi à cozinha, preparou algo para beber. Voltou para seu quarto improvisado. Olhou pela última vez aquela foto 3x4. Foi até a janela, e de lá, deixou que o vento se encarregasse de levar a única lembrança que lhe restava daquele sorriso.

Lançou-a contra o vento. Fechou a janela, as cortinas. Deu de costas, ligou a TV. O rádio ainda estava ligado. Ficou na cama o dia inteiro. Fazia muito frio naquele dia, e mesmo com a porta fechada, o vento insistia em entrar pela beirada mais estreita. Não ligou para o que os outros diziam. Não se levantou, e ficou ali com seus pensamentos.

O rádio foi desligado. A TV ficou em silêncio. As fotos 3x4 guardadas como em um segredo. E aquele sorriso permaneceu em sua lembrança, e num vaso de planta qualquer do jardim. Mas disso, não ficara sabendo.

masques

Caminhava em direção à saída, seguindo aquele enorme fluxo de pessoas. Pensava no que estava indo fazer. Revisava mentalmente a lista de seus afazeres naquele dia. Tentara lembrar-se do título do livro que desejava comprar, sem sucesso, só lhe vinha à mente os livros acadêmicos que teria de ler.

Andava com passos rápidos, não poderia se dar ao luxo de caminhar lentamente em meio àquela multidão. O caminho era longo até a saída, e não sabia ao certo se estaria chovendo. O murmurinho de vozes era grande, e o som dos trens passando na plataforma ainda não haviam desaparecido.

Em certo momento pode ver onde as pessoas que entravam se cruzavam com as que saíam. Uma pequena confusão se formava, e por segundos não saberia dizer para onde deveria ir.

Foi ali, em meio a essa confusão que viu passar aquele rosto. Tentou se lembrar de onde o conhecia, pensou em falar-lhe, mas ao virar, viu-se atrapalhando o trânsito. E pior, viu que o rosto havia desaparecido, misturando-se à massa de máscaras que se aglomerava na escada de embarque.

Continuou andando. Sem pressa agora. Não se importava com o trânsito que lhe seguia. Tentou ajeitar-se naquela confusão, continuou a andar quase junto à parede, onde não atrapalharia tanto.

Caminhou lentamente, viu passar por ali dezenas de pessoas, com as mais variadas características, mas aquele rosto não saía de sua mente. Máscaras passaram, e o rosto permaneceu, apenas um rosto.

Pensou um tanto mais, até se lembrar, finalmente, onde o havia visto pela primeira vez. Lhe veio à mente então aquele dia gelado. Abraços calorosos, beijos ardentes e um sorriso encantador na plataforma de uma estação qualquer. Algo passageiro, uma relação tão efêmera que julgaria não ter acontecido, não fosse o anel que agora figurava entre as bugigangas de sua caixa de fotografias.

Talvez aquele rosto fora apenas fruto de um sonho, e como todos os outros que passavam, era apenas uma máscara. Pensou mais, e agora apertava o passo. Lembrou-se que já passava da hora, mas não sabia para que. Já passava das nove da noite. Caminhava ainda em direção à saída.

Chegou, enfim, à avenida principal, onde a estação descarregava toda aquela massa. As máscaras aumentavam em quantidade. Talvez também usasse uma. Não sabia ao certo, sabia apenas que era mais um elemento que compunha aquela grande e densa massa.

Caminhou mais um pouco até que chegou a seu destino... uma livraria grande e encantadoramente acolhedora. Andou um pouco por entre as prateleiras, pegou um livro qualquer, não lembrava o que havia ido buscar, sentou-se em um canto e começou a ler.

Não conseguiu se concentrar por muito tempo. O rosto misterioso lhe vinha à mente a todo momento. Ficou ali por mais um tempo. Decidiu levar o livro, não porque a história havia lhe interessado, na verdade, nem prestara atenção. Mas porque a capa e o título lhe soaram agradáveis.

Saiu dali, e já não lembrava por qual motivo  havia ido até lá. Caminhou um pouco pela avenida. Começava a chover uma chuva que lhe doía o rosto. Percebeu que, assim como todos à sua volta, usava sim uma máscara. Não se sentiu mal.

Lembrou-se do rosto em meio à multidão. Sorriu. Pensou naquela noite intensa. Agradeceu por tê-lo perdido em meio à multidão na escada de embarque. Parou no primeiro ponto de ônibus. Esperou junto à multidão, entrou no ônibus 103, que o deixaria em casa.

Olhou pela janela, pode ver através dos olhares, pessoas e seus conflitos internos. Sorriu um sorriso tímido e tristonho. As máscaras haviam caído, e do rosto, só restavam alguns vestígios.

terça-feira, 5 de junho de 2012

le silence

O relógio marcava oito horas. Já não chovia, mas estava frio. Em um banco da estação de metrô, lia um livro qualquer. Não esteve em silêncio em nenhum momento, mas sua concentração era tanta, que se dedicou à leitura por um longo período.

Não houve silêncio absoluto, até que aquele trem saiu da plataforma. Pareceu-lhe que o mundo havia sido desligado.

Ao partir, aquele trem levou consigo todo o som que impregnava aquela estação. O silêncio se fez, por fim, absoluto. A leitura estava realmente agradável, mas em determinado momento algo maior lhe chamou a atenção.

Na plataforma em frente, do outro lado da estação, encontra-se uma senhora, com uma linda criança em seu colo. Em meio àquele silêncio tranquilo e assustador, algo incomodou aquela criança.

Um som alto ecoou por toda a estação. Algo entre medo e alegria. A criança se tornara uma mulher. Seu choro ecoava por toda a estação. Seu riso se fez presente. Só agora, no entanto, começou-se a notar qualquer com no ambiente.

Os sons eram diversos, e começaram tímidos. Um homem pega uma bebida em uma dessas máquinas de guloseimas. Um casal, à sua esquerda, conversava e aumentava o som de sua risada. Trocavam carinhos. A criança chorava do outro lado da estação. E os trens novamente se fizeram presentes.

Naquele curto período de tempo, passos mais fortes começaram a aparecer, máquinas se faziam escutar, por fim, vozes surgiram, comentando os mais diversos assuntos. Pessoas paravam, esperavam. Sentavam-se ao seu lado. Trocaram olhares, nada tão demorado.

A mulher, que em meio àquele barulho sincronizado evocado por sua voz, tornara-se novamente uma bela criança no colo de sua mãe. Nada mais parecia desligar-lhe do mundo. A criança gritou novamente. Tentara, sem sucesso, silenciar tudo... novamente. Como não conseguira, chorou por alguns instantes. Não um choro escandaloso, mas um choro baixinho, quase sussurrado.

O relógio marcava agora oito e quinze. Tudo acontecera tão rápido. Voltou os olhos para o livro que lia. A história não mais lhe pareceu interessante. Reparou que estação estava vazia ainda. Muitos trens haviam passado, mas o ambiente ainda era o mesmo.

Pessoas passaram por ali, mas não se fizeram notar como aquela criança. Pessoas corriam contra o tempo, queriam logo o aconchego do lar. Olhavam umas às outras. Um tom de indiferença no ar. Uma indiferença coletiva. O silêncio reinava entre elas. A seriedade também.

Mais um trem passara por aquela plataforma, e só agora pode perceber que a mulher e a criança haviam ido embora. Olhou um pouco mais o que se passava. O desenrolar de milhões de histórias, todas ali, juntas ao mesmo tempo.

O livro permanecera aberto, mas seus olhos fitavam a vida. O casal que estivera ali o tempo todo, esperou agora pelo seu trem, embarcou e se foram. Ainda no banco da plataforma, fechou o livro, guardou-o na mochila e embarcou no primeiro trem.

Decidiu ir de encontro com o acaso. Se deixou levar.

petits drapeaux

No ponto de ônibus, visto de cima, era apenas mais um círculo em meio a tantos outros. Com seu guarda chuva preto, seguia sua rotina de sempre. Esperava... naquele manhã chuvosa de segunda-feira.

Havia algo de estranho no ar. Olhava ao redor, pessoas se juntavam àquela espera, longa e extenuante, cada qual com seu guarda chuva. Vizinhos observavam o pequeno grupo que se formara. Na rua, triste e vazia, apenas as gotas da chuva se faziam perceber.

O dia não começou muito bem. Esperou pelo ônibus 103, que leva ao centro. Esperou pouco mais de meia hora. Desistiu. Voltou para casa. Abriu o portão, fechou o guarda chuva, entrou e o colocou num canto qualquer daquele longo corredor. Secou os pés, trancou o portão. Abriu a porta da sala e foi direto para seu quarto.

Deitou-se novamente em sua cama. Lhe vinha à mente as bandeirolas da festa. Festa essa que não fora. A decoração permaneceu lá por mais dois dias, e da plataforma da estação de trem podia ver os fios pendurados com bandeirinhas coloridas.

Em meio ao pátio gramado ainda restavam algumas barracas. Ligou o computador, foi a cozinha e preparou um chocolate quente. Era uma manhã chuvosa e fria. Voltou ao seu quarto, ajeitou-se entre as cobertas, ficando o mais confortável possível.

Vagou um pouco em seus pensamentos e, num instante repentino, pôs-se a escrever algo sobre as bandeirolas. Não havia ido à festa, mas começou a imaginar e viajar por entre a diversidade de cores das pequenas bandeirinhas, que juntas, de longe, pareciam encher aquele pátio de alegria.

Não tinha muito tempo, logo teria de sair para seu compromisso de sempre. Todas às tardes, no horário de sempre. Escreveu pouco mais que uma página e decidiu não mostrar aquilo a ninguém.

Olhava pela janela daquele quarto improvisado, e notou que o céu estava agora mais cinza do que antes. Colocou um ponto final em seu texto. Desligou o computador. Foi até a cozinha e preparou mais um chocolate quente, dessa vez, com uma dose bem caprichada de conhaque.

Tomou ali mesmo, próximo ao fogão com a chama ainda acesa. Olhou no relógio de pulso que roubara de alguém, viu que o sol já devia estar alto. Era hora do almoço. Porém, todos naquela casa pareciam dormir.

O silêncio era grande. Foi ao quarto, vestiu o casaco de lã, colocou a mochila nas costas e saiu sem pegar o guarda chuva.

O céu estava mais escuro agora. Chovia pouco, uma chuva fina e gelada. Trancou o portão. Foi ao ponto de ônibus e pegou o 103, que leva para o centro. Sentou-se em um banco qualquer. Desceu antes de chegar à estação de trem. Decidiu ir a pé naquele dia.

Subiu as escadas da estação. Entrou. Desceu as escadas da plataforma. Sentou-se no banco de sempre. Ao seu lado sentou-se uma senhora. E só então percebeu que o pátio também estava cinza, e a única cor que deixava-se à mostra, ainda que timidamente, era o verde do gramado molhado.

As bandeirinhas não estavam mais lá. E o dia permaneceu cinza.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

une nuit donnée

Foi um dia longo aquele. A tarde estava quente e o tempo parecia não passar e, a cada minuto, lhe vinha à mente coisas a fazer, coisas a serem concluídas, pendências superficiais, mas que deveriam ser terminadas. Seu corpo transpirava debaixo da coberta de pelo e do lençol barato em que se enrolava. O sol começava a se pôr, e o céu banhava-se de tons alaranjados.

Adormeceu. Mas não se sentia em casa.

Não sei bem ao certo com o que sonhou, algo entre fantasia e um pouco de uma realidade cotidiana. As horas passavam mais rápido agora e, num estalar de dedos, pensou ter caído no sono por mais tempo do que deveria. Dormira apenas algumas horas, horas poucas para que o corpo pudesse descansar. Estava em sua cama, mas naquele momento desejou estar em um lugar mais confortável.

Acordou. Viu que a lua iluminava o céu de modo que as estrelas pareciam reverenciar a dama branca. A noite se fez longa, assim como o dia quente de domingo. Não conseguia pensar em mais nada. Olhava ao redor, e pode perceber cada objeto naquele quarto improvisado.

Sua cama ao centro lhe proporcionava uma boa visão de tudo. À sua esquerda se via um balcão com alguns livros velhos e uns papéis empilhados... talvez até bagunçados. Ao virar-se, pode ver seu armário de livros e a velha fotografia de luzes em seu topo. Alguns papéis e roupas se espalhavam pelo chão. O guarda-roupas com portas abertas indicava que alguém havia estado ali.

Sentou-se na beira de sua cama. Olhou para frente e viu sua mesa. Não queria ter de se levantar. Mas teria de fazê-lo mais cedo ou mais tarde. Levantou-se... e só então percebeu que adormecera por cima do livro que estava lendo.

Olhou para um porta retrato, largado no chão próximo à sua cama. Foi até a cozinha, pegou algo para comer, bebeu uma taça daquele vinho barato. Mas não se sentia em casa.

Voltou ao seu quarto. Sentou-se na cadeira em frente à sua mesa. Enfrentou todos aquele papéis que deveria arrumar. Olhou para sua cama. Levantou-se e foi deitar-se.

A lua iluminava o quarto. Era jovem ainda. Teve dificuldade para dormir. Em muitos momentos não sabia ao certo se dormia ou se estava viajando por entre suas ideias. Demorou para dormir, mas, de olhos fechados... tentou imaginar como estaria tudo lá fora.

O tempo passava e, ainda sem saber ao certo se dormia ou se pensava, virou-se de lado na cama. O calor lhe incomodava... sonhou ter tirado a coberta de cima de seu corpo molhado. Sonhou apenas, isso é fato.

Não sei ao certo o que sonhou aquela noite. Não sei ao certo se pensou em mais algo... aquela noite. De olhos fechados, apenas revirava-se de um lado ao outro da velha cama de solteiro com colchão de molas. De olhos fechados, não queria saber de mais nada naquela noite.

Adormeceu enfim. Com um sorriso no rosto, parecia divagar ao olhar o teto branco daquele quarto improvisado. Virou-se de lado e, pareceu... finalmente... se sentir em casa.

domingo, 3 de junho de 2012

...

Não dormiu aquela noite... viu pela janela que o dia estava claro... olhou o relógio que marcava as sete horas da manhã. Pensou em tudo o que já havia feito, pensou em tudo o que já havia visto, e em como seus olhos brilhavam mais, alguns anos atrás.

Olhava para o teto branco daquele quarto improvisado, e pensava em como sua transformação se deu de forma tão lenta, mas ao mesmo tempo tão repentinamente. Pensava consigo em como era antes, e no que se transformara.

Deitou-se de forma mais confortável, pegou seu computador e começou a escrever algumas palavras. Nada de tão interessante, apenas pensamentos tolos que lhe passavam agora pela cabeça. Coisas banais, listas de tudo o que fizera e de tudo o que sonhava fazer até aquele momento, mas que por ironia do destino, ou por preguiça, ainda não havia feito.

Pensava em como a sociedade nos transforma, e em como tudo aquilo havia influenciado em sua formação, em seu desenvolvimento e, mais que isso tudo, em suas atitudes.

Já não há mais a alegria da juventude, o sonho de mudar o mundo, construir um futuro melhor. Sonhos foram se apagando... ideias foram deixadas no papel, a princípio, e pouco depois passaram a não sair nem mesmo da mente, não passando de meras sandices passageiras... tudo o que desejava era saber onde havia perdido o rumo de sua história.

Era uma manhã de domingo, mas não como outra qualquer... como disse, não havia dormido aquela noite... amanheceu entre as cobertas de sua cama, olhando para o teto branco daquele quarto improvisado.

Pensava no que faria naquele dia, pensou no que faria dali em diante e se teria forças ou motivações, ao menos ideias e sonhos para continuar seguindo em frente... continuar escrevendo sua história, mais que isso...

Pensou no que poderia fazer depois daquele instante em frente ao computador... não sabia o que fazer, não tinha ideia do que poderia fazer, se bem que, em certo momento, julgou não querer fazer nada... e agradeceu por não saber o que teria a fazer, apenas pensou... e deixou o tempo o levar.

Não dormiu aquela noite... viu pela janela que o dia estava claro... olhou o relógio que marcava as sete horas da manhã. Pensou em tudo o que já havia feito, pensou em tudo o que já havia visto, e em como seus olhos brilhavam mais, alguns anos atrás.

Pôs-se a escrever coisas sem sentido, ou talvez lembranças e memórias de um tempo não tão distante, um tempo real.

Era jovem ainda, mas passava por uma revolução em sua mente. Não sabia como eram as coisas, e não sabia como lidar com o mundo. Sabia apenas que havia algo de errado... no mundo... na sua vida... no seu caráter.

Colocou por fim um ponto final em seu texto, voltou-se para o teto branco daquele quarto improvisado e pôs-se novamente a pensar e viajar entre as milhares de ideias e sonhos que não mais saíram de sua mente.